Estado e democracia: esboço de uma interpretação do habitus político brasileiro

Publicado: abril 21, 2014 em Diversos

 

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Álvaro Filipe Oxley da Rocha1 Unisinos, RS,

Brasil alvaro555@yahoo.com

Gabriel Eidelwein Silveira2 Unisinos, RS, Brasil

 

Resumo Este artigo explora a possibilidade de se utilizar a teoria das formas de governo de Montesquieu para interpretar a conduta típica do político brasileiro. Identifica-se o problema da incompatibilidade das instituições democráticas com a ação fundada no respeito ao bem público, em face da cultura brasileira. A teoria de Montesquieu é contextualizada na corrente das teorias das formas de governo de Aristóteles e de Maquiavel. A par disso, é proposta uma atualização sistemática da teoria de Montes- quieu, aproximando-a do conceito sociológico de habitus, no uso de Bourdieu. Por fim, são utilizados elementos de Faoro com o objetivo de esclarecer a conjuntura política que produziu o habitus antidemocrático do político no Estado brasileiro.

 

“Ah, esse coqueiro que dá coco…” (Ary Barroso, Aquarela do Brasil)
Considerações iniciais

Este artigo se propõe a elaborar, em linhas bastan- te gerais, o problema da interpretação teórica do com- portamento político ideal-típico observado no Brasil, para sustentar a causalidade histórico-cultural de um conheci- do descompasso entre o primado do público, exigido pelas instituições democráticas, e a normalizada e naturalizada atitude egoística em relação à coisa pública, denominada como “corrupção estrutural”. Para tanto, será utilizada a clássica tipologia das “naturezas” e dos “princípios” dos governos criada por Montesquieu (2002), aproximando essa mesma teoria do conceito sociológico de habitus, no uso que dele faz Bourdieu (2004b). Com esse procedi- mento, pretende-se garantir uma atualização sistemática na teoria política – filosófica – para o contexto científico atual, em que as teorias devem responder às categorias das ciências humanas mais desenvolvidas, notadamente as da sociologia e da psicanálise. A metodologia utilizada é basicamente a dos “tipos ideais” ou “puros” (Weber, 1999), em que se exageram um ou mais traços da realidade para formar “conceitos puros” (Timasheff, 1960). Por esse método, o cientista deve indicar o grau de aproximação do “tipo puro” em relação à realidade observada (Weber, 1999)3. Para o nosso problema específico – o do descompasso entre o comportamento político exigido pela democra- cia e o padrão da atitude política mais geral observada
no Brasil – será preciso estabelecer o traço caracte- rístico do tipo ideal da “república democrática” como Estado Democrático de Direito4 – em que o referido descompasso está ausente –, bem como será mister es- tabelecer o traço característico do habitus político histó- rico observado no Brasil.

Montesquieu no contexto das teorias das formas de governo

Além da conhecida teoria da “divisão dos poderes”, pela qual a maioria refere o nome de Charles Secondat, barão de Montesquieu, esse pensador elaborou uma outra, de eficácia científica muito maior e em razão da qual ele foi considerado “pai da sociologia” (Al- buquerque in Weffort, 1989). Nessa empresa, Montes- quieu (2002) debruçou-se sobre as teorias das formas de governo, principalmente a de Aristóteles (2002) e a de Maquiavel (1996), superando a perspectiva de ambos, pelo fato de ter-se preocupado com a definição da base social em que estão fundamentadas as diversas formas de governo. O critério desses inspiradores de Montesquieu, utilizado por eles para definir os regimes políticos, leva- va em conta apenas questões relativas à cúpula do go- verno (classe política), desdenhando a estrutura social que é o seu sustentáculo – justamente esse foi o ponto em que Montesquieu os superou5. Neste estudo, primeiro, analisa-se a perspec- tiva de Aristóteles (2002), segundo a qual as formas de governo devem ser compreendidas pelo crité- rio duplo do número de governantes e da qualidade do seu governo. Obtém-se a tipologia aristotélica,
3 A intenção, aqui, é simplesmente a de desenvolver alguns elementos para a elaboração do “tipo ideal” do habitus. Portanto, trata-se de uma intenção puramente teórica; e a validade do esquema interpretativo aqui proposto deve ser verificada em cada aproximação empírica, portanto, em cada pesquisa específica. 4 Nossa opção pela terminologia de Montesquieu (monarquia, república, despotismo) impõe que o “habitus democrático” seja referido como quase sinônimo do “prin- cípio republicano”, ainda que seja evidente a distinção entre os conceitos de democracia e de república. 5 Quer dizer que Montesquieu (2002) já antecipava um ramo de estudos hoje muito em voga, que é o das pesquisas sobre as “bases culturais dos sistemas políticos” ou, para falar sociologicamente, sobre as condições sociais de tais sistemas.
 Estado e democracia: esboço de uma interpretação do habitus político brasileiro respondendo-se a duas perguntas básicas: “Quantos governam?” e “Como governam?”. Assim, quanto ao número de governantes, os governos podem ser classificados em monarquias, aristocracias ou demo- cracias, conforme seja a soberania exercida por um, por poucos ou por muitos, respectivamente. Esses são também os nomes que se atribuem às formas retas de governo – em que os governantes estão atentos à causa comum –, em oposição às suas for- mas corruptas. Quando as formas de governo são, por assim di- zer, corrompidas em favorecimento da “classe política”, elas recebem, respectivamente, os nomes de tirania, oli- garquia ou demagogia.

O critério para essa classificação sêxtupla das for- mas de governo, dividida em duas partes tripartites, conforme sejam retas ou corruptas, leva em con- sideração o fato de estar o governo voltado para o atendimento das necessidades da comunidade (retas) ou para o das necessidades e vontades ego- ístas daquele(s) que governa(m) (corruptas) (Bittar, 2002, p. 80).
Aristóteles (2002) avalia o grau de corruptibili- dadede em cada uma dessas constituições, perceben- do que a monarquia, considerada a melhor forma de governo6, é também a mais corruptível, por, facilmente, degenerar-se em uma tirania. Por sua vez, a aristocra- cia não é considerada um governo tão bom quanto o é a monarquia, mas é menos corruptível e possui menos chances de transformar-se numa oligarquia. Por fim, a democracia, forma de governo considerada essencialmente ruim, é, segundo o critério de análi- se aristotélico, a mais estável das formas puras. Por isso, Aristóteles (2002) teoriza a possibilidade de um governo misto de aristocracia e de democracia, por ele chamado de politeía, (Quadro 1) caracterizado pela constituição do povo e da elite no núcleo da soberania – proposta essa que teria se aproximado da república romana histórica7.
Quadro 1 – As formas de governo segundo Aristóteles (2002). Chart 1 – Forms of government according to Aristotle (2002).
Quantos governam?
Como governam? Forma “boa” Forma corrupta Um Monarquia Tirania
Poucos Aristocracia Oligarquia
Muitos Democracia Demagogia
Governo misto Politeía

Depois de Aristóteles, Maquiavel (1996) estabe- leceu uma nova classificação das formas de governo (Quadro 2) , pela qual se admite a existência de apenas duas formas: a monarquia ou principado e a república, esta última, a forma classificatória mais amplamente aceita até hoje (Füher e Füher, 2003). A teoria de Ma- quiavel afasta-se do idealismo metafísico de Aristóte- les e se fixa nas demandas impostas pela realidade8. Por um lado, a monarquia ou principado é a forma de governo que se impõe para um Estado em fundação, em que o príncipe reúne bastantes meios de coação física para eliminar os poderes parciais e institui a or- dem jurídica (Weber, 2002b); a república, por outro, é apropriada para o Estado que já superou o problema da obtenção da paz interna e pode, portanto, experi- mentar as formas institucionais pelas quais se obtém a liberdade política, o bem segundo na escala das priori- dades políticas.

Maquiavel sugere que há basicamente duas respos- tas à anarquia decorrente da natureza humana e do confronto entre os grupos sociais: o Principado e a República. A escolha de uma ou de outra forma insti tucional não depende de um mero ato de vontade ou de considerações abstratas e idealistas sobre o regime, mas da situação concreta. Assim, quando a nação encontra-se ameaçada de deterioração, quando a corrupção alastrou-se, é necessário um governo forte, que crie e coloque seus instrumentos de poder para inibir a vitalidade das forças desagregadoras e centrífugas. O príncipe não é um ditador; é, mais propriamente, um fundador do Estado, um agente da transição numa fase em que a nação se acha ameaçada de decomposição. Quando, ao contrário, a sociedade já encontrou for- mas de equilíbrio, o poder político cumpriu sua função regeneradora e “educadora”, ela está preparada para a República. Neste regime, que por vezes o pensador florentino chama de liberdade, o povo é virtuoso, as instituições são estáveis e contemplam a dinâmica das relações sociais. Os conflitos são fonte de vigor, sinal de uma cidadania ativa, e portanto são desejáveis (Sa- dek in Weffort, 1989, p. 20-21).
 

O argumento pelo qual a monarquia pode ser considerada a melhor forma de governo é bastante simples. Já que o rei é uma autoridade formada por um homem apenas, está descartado o inconveniente de a autoridade política contradizer-se, tal como acontece o tempo todo nos “corpos coletivos” – tanto mais quanto mais desigual cultural e economicamente forem as suas partes constituintes. Se o rei é bom e sábio, tudo estará resolvido no plano da política. Se for mau ou incapaz, ao contrário, tenderá a tornar-se um tirano. Mas a democracia nem sequer teria a chance de manter-se como uma forma reta. Ela foi considerada a pior forma de governo porque já parte do princípio de que muitos tomarão partido, e, assim, o regime está fadado à contradição, motivo pelo qual Aristóteles a considerou uma forma política essencialmente má. 7 O senado patrício romano é contraposto pelo tribunato plebeu, numa constituição tipicamente republicana, que pode ser considerada a antecessora histórica das modernas Câmaras dos Lordes e dos Plebeus inglesas ou das nossas Câmaras dos Senadores e dos Deputados – isso se, entre nós, essas instituições fossem realmente representativas de classe e não houvesse a “corrupção estrutural” descrita neste artigo. 8 Maquiavel declarava buscar a “verdade efetiva”, antecipando intuitivamente o objetivismo baconiano. Ele argumentava buscar a verdade sobre aquilo que os homens realmente fazem, e nem tanto as razões que evocam para justificar as suas ações. Essa atitude é tipicamente científica e tende a um certo tipo de empirismo, além de marcar a distância entre Maquiavel e os pensadores puramente lógicos, como Aristóteles.

Quadro 2 – As formas de governo segundo Maquiavel. Chart 2 – Forms of government according to Machiavelli.
Formas de governo Função política Monarquia Paz, ordem República Liberdade
Montesquieu, por sua vez, inspirou-se tanto em Aris- tóteles quanto em Maquiavel para criar a sua tipologia das formas de governo. Mas, diferentemente deles, estava inte- ressado em descobrir as leis gerais (“espírito”) das diferen- tes sociedades, razão pela qual apenas uma – e não qualquer uma – forma política lhes pode ser própria. “Seria el efecto de un gran azar si las leyes de una nación pudieran convenir a otra” (Groethuysen, 1989, p. 55). Para Montesquieu (in Châtelet et al., 2000), as leis são “relações necessárias que derivam da natureza das coisas”, de modo que as diferentes nações ou sociedades, com os princípios ou paixões que lhes são próprios, não poderiam ajustar-se senão a uma – ape- nas a uma – natureza constitucional específica. Montesquieu (2002) denomina como natureza do governo as suas diferentes formas institucionais, re- pública, monarquia, despotismo, (Quadro 3); e como seu princípio o sentimento social sem o qual as diferentes formas de governo não poderiam prosperar (virtude, honra, medo). Assim, não havendo uma congruência entre as naturezas dos governos e os seus respectivos princípios, qualquer forma política é considerada cor- rupta9. A exigência de uma resposta das formas políticas
às exigências da qualidade de sua base social é o inova- dor aspecto sociológico da teoria política de Montes- quieu (Albuquerque in Weffort, 1989).

As leis mantêm relações com a natureza e com o princípio de cada governo: a teoria da lei exige uma nova classificação dos regimes políticos. Os gover- nos podem ser distinguidos a partir de sua natureza, ou seja, a partir dessa estrutura particular que de- fine o modo de detenção e de exercício do poder, mas também a partir de seu princípio, ou seja, desse conjunto de paixões específicas […] (Châtelet et al., 2000, p. 63).
Primeiro, a república, que “se caracteriza pelo fato de que o poder é detido pelo povo (sua natureza) e que nela reina a virtude (seu princípio), entendida no sentido político (amor pela res publica)” como “amor socrático”, no uso que Voltaire (2002, p. 27) faz da expressão, quer dizer um sentimento capaz de unir o povo “pelo jura- mento de dar a vida uns pelos outros”. Em última análise, o amor socrático, que caracteriza o ideal da república, é o princípio da primazia do interesse público ou do Direito do Estado, em face dos interesses egoístas dos particu- lares. Foi com base nesse sentimento, ou princípio, que Sócrates deixou-se matar pela eclesia ateniense, ainda que injustamente, para demonstrar a sua submissão total aos interesses do Estado (Platão, 2002). Mais um detalhe: a natureza da república é tal que engloba tanto os governos democráticos como os aristocráticos. Por sua vez, a monarquia “Pela sua natureza, é o governo de um só que dirige o Estado através de leis fixas e estabelecidas. Pelo seu princípio, é o rei- no da honra” (Althusser, 1972, p. 92). Nota-se, nes- sa definição, o repúdio ao absolutismo do monarca e a exigência de que o mesmo exerça a soberania por meio da Lei, contra a qual ele não pode nem deve aten- tar – princípio defendido originariamente por Hobbes (2001). O princípio da monarquia é a honra, entendida como o amor àquilo que cada um deve à sua posição ou status social. Num regime monárquico, o rei deve contar com o apoio de sua honrada nobreza, verda- deiro sustentáculo do regime, que serve ao rei em troca dos privilégios da distinção: “[…] o rei só é rei pela existência da nobreza e do clero e deve, em tro- ca disso, reconhecê-los e conservar-lhes o privilégio” (Althusser, 1972, p. 94).
9 A retidão ou a corrupção das formas de governo, aqui, não fazem parte da essência dessas formas. Estão condicionadas à congruência ou à incongruência das formas políticas as suas bases sociais. Até mesmo um governo despótico pode ser um “bom” governo, se estiver adaptado ao princípio de um povo específico, que esteja acostumado a ter medo e que, portanto, funcione melhor num ambiente político que realimente esse medo (despotismo) que num outro que lhe exigiria interesse e participação políticos (democracia).
Rocha e Silveira | Estado e democracia: esboço de uma interpretação do habitus político brasileiro
Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 1(1):9-15 13
A honra é um princípio fácil, que a nobreza produz como que involuntariamente; sua vaidade ou seu egoísmo a impele para o esforço. Já na República, a virtude é de certo modo forçada. Portanto, há in- teresse em conservar os privilégios da nobreza, a fim de beneficiar-se com seus efeitos (Châtelet et al., 2000, p. 64).
Por fim, “o despotismo, como governo em que um só homem, sem leis nem regras, obtém tudo pela sua vontade e pelos seus caprichos” (Althusser, 1972, p. 108) distancia-se da monarquia pelo fato de não haver hierarquia social ou distinção nobiliárquica; dessa forma, todos são iguais. No entanto, a igualdade do despotis- mo não é a mesma igualdade da república: se nesta to- dos são iguais em direitos, naquele todos são iguais na submissão ao déspota, razão pela qual o despotismo só pode ter por princípio o medo:
Os homens são nele todos iguais, não se podem pre- ferir uns aos outros; já que os homens são nele todos escravos, nada pode ser preferido […], e como é pre- ciso haver virtude numa República e honra numa mo- narquia, é preciso haver temor num governo despótico (Montesquieu in Châtelet et al., 2000, p. 63).
Atualização sistemática: os princípios como habitus políticos
Este trabalho sugere a hipótese de que aquilo que Montesquieu (2002) chamou “princípios” poderia ser descrito igualmente pelo conceito sociológico de habi- tus, no uso que Bourdieu (in Ortiz, 2003) faz do termo. Bourdieu (2004b) formulou o conceito de habitus para dar conta de uma dificuldade teórica que dividia os cien-
tistas sociais desde a fundação formal da sociologia como ciência por Weber (2002b) e Durkheim (2001). Enquanto Durkheim (2001) sustentava a primazia das forças sociais externas ao indivíduo para a determinação das suas ma- neiras de agir, pensar e sentir, Weber (2002b) entendia que a ação social era compreensível, a partir das razões conscientes internas visadas pelos indivíduos. Com a intenção declarada de evitar o fatalismo durkheimiano, sem cair na filosofia da consciência we- beriana, Bourdieu (2004b) sugere a hipótese de que o peso do social, vinculado ao fato de se pertencer a um contexto social – nacional, político, econômico etc. –, é incorporado pelos indivíduos sob a forma de um sis- tema de disposições (os habitus), sem que isso neces- sariamente permita-lhes consciência do fato de o seu comportamento ser, em grande parte, influenciado por esse condicionamento.
[…] [Os habitus são] sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das represen- tações que podem ser objetivamente “reguladas” e “regulares” sem ser o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a in- tenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um regente (Bourdieu, 2004b, p. 53-54).
Nesse contexto, nada impede de se levar adian- te a hipótese de que os princípios de Montesquieu (2002) possam ser tratados como sendo os mesmos habitus de Bourdieu (2004b). Há, inclusive, intérpretes de Montesquieu que, ao abordar o tema da congruência entre a natureza dos governos e os seus respecti- vos princípios, sustentam que “[…] unas condiciones económicas y morales crearon una cierta disposición de espírito”, e que “[…] todas las instituciones deben ajustarse a esa disposición […]” (Groethuysen, 1989, p. 56). Ora, “disposições inculcadas” no interior do indivíduo pelo seu contexto social são exatamente a forma que define o conceito de habitus. Decorre que o meio social (inclusive as insti- tuições políticas), com todo o peso da história que o produziu, é capaz de criar sistemas de disposições (ha- bitus) que respondem muito bem às suas próprias con- dições de produção, mas não a outras. Isso significa que regimes monárquicos produzem disposições de honra, as quais reproduzem e sustentam os regimes monár- quicos. Repúblicas produzem cidadãos virtuosos, que reproduzem essas repúblicas, e assim por diante. Se for assim, é possível apontar teoricamente algu- mas das possíveis causas do descompasso – descrito como corrupção estrutural – entre as instituições políticas brasilei- ras, pretensamente democráticas, e a atitude típica da grande maioria dos políticos brasileiros frente à coisa pública.

A “corrupção estrutural” da democracia brasileira

Do ponto de vista formal, o Brasil se define como Estado Democrático de Direito (Art. 1o da Constituição Federal, Brasil, 1988), identifica-se com a realização his- tórica da forma constitucional que reúne os principais elementos do Estado Liberal (segurança jurídica) e do Es- tado Social (prestações positivas do poder público) e se compromete, por definição, com o projeto de transfor- mação do status quo (Morais e Streck, 2000). Entretanto, essa é apenas a posição oficial do Estado – e dos juristas que aderem a ele sem nenhuma crítica, quer dizer, com fidelidade tanto maior quanto maior for o lucro (econô- mico ou simbólico) que conseguem obter dele. Na prática, percebe-se um certo descompasso entre as instituições democráticas e a cultura brasileira (Rocha, 2002), descrito, no plano jurídico-hermenêutico, como “desfuncionalidade” (Streck, 2000). Os autores identificam no habitus a causa dessa incongruência entre as instituições formais e a atitude material (Coppeti, 2000; Rocha, 2005, 2002) das pessoas em relação à coisa pública no Brasil. É preciso definir as condições históricas da produção do habitus político típico-ideal do brasileiro para compreender legitima- mente a razão pela qual “se torna muito difícil aplicar em nosso contexto o modelo de Estado Ocidental im- portado” (Badie in Rocha, 2002, p. 18).
Segundo Rocha (2002), o modelo de democracia praticado nos Estados Unidos e elogiado por Tocque- ville pressupõe a difusão ou generalização da cultura democrática, trabalho que, entre nós, não ocorreu. A cultura democrática a ser generalizada é precisamente a “virtude republicana” de que falava Montesquieu (2002), a qual só poderia ser inculcada como habitus em condi- ções sociais, culturais e econômicas específicas, diferen- tes das condições brasileiras. Essas condições se fizeram presentes entre os colonizadores da América de modo excepcional e, com dificuldade um tanto maior (vejam- se as Revoluções), também estiverem presentes para os ingleses, franceses e outros povos com histórias bem específicas de aculturamento político. Faoro (2001) explica que o fato de, em Portugal e no Brasil colonial e regencial, ter existido um “estado patrimonial” – no lugar do “estado feudal” da França e da Inglaterra – tornou improvável o afloramento de uma clas- se social economicamente interessada em riqueza, desvin- culada do Estado. A confusão entre o patrimônio do rei e o erário público, bem como o surgimento de um estamen- to de tipo burocrático que se enobrece e enriquece pela ocupação dos cargos públicos, usurpados por eles, está no contexto sociopolítico do qual deriva o habitus político – tipicamente medieval ou monárquico – presente no com- portamento do político brasileiro até hoje. Compreende- se, pois, que o habitus político, como sistema disposicional de atitudes frente à coisa pública, foi produzido segundo condições muito antidemocráticas. Por essa razão, não se pode esperar que ele produza as práticas democráticas que o tipo ideal (natureza) da república exige. Segundo a teoria de Montesquieu (2002), a repú- blica – democrática ou aristocrática – pressupõe uma atitude em que o interesse particular se dobra perante a primazia do público (virtude), ao passo que a monar- quia exige uma nobreza ansiosa pela distinção social e pelas vantagens que o Estado pode lhe oferecer (honra). Paradoxalmente, a atitude habitual do político brasileiro, pertencente ao estamento que dominou a nossa política desde a colonização, é surpreendentemente semelhante à descrição do princípio da honra monárquica e, assim, diverso da virtude republicana:
O estamento supõe distância social e se esforça pela conquista de vantagens materiais e espirituais exclusi- vas. As convenções, e não a ordem legal, determinam as sanções para a desqualificação estamental, bem como asseguram privilégios materiais e de maneiras. O fechamento da comunidade leva à apropriação de oportunidades econômicas, que desembocam, no pon- to extremo, nos monopólios de atividades lucrativas e de cargos públicos (Faoro, 2001, p. 62).

Segue-se que os políticos, no Brasil, salvo exce- ções notáveis, têm o seu imaginário fulcrado em habitus capazes de produzir práticas e discursos “estrutural- mente corrompidos”, tais como aqueles denunciados no exemplo extremo de Severino Cavalcanti, que, como deputado, nomeou oito parentes seus para a ocupação de cargos federais comissionados sob o pretexto de possuírem curso superior. Segundo a sua lógica de pen- samento, meio tímida ou dissimulada, mas muito presen- te, a res publica lhe pertence e deve ser apropriada por ele por direito (Terra Notícias, 2005). Observa-se uma exacerbada vontade de enobre- cer pela fidalguia e pelas relações pessoais, uma atitude tipicamente medieval (Bourdieu, 2004a) e contrária à ética do trabalho. Enquanto os colonizadores dos Esta- dos Unidos, por exemplo, tinham em mente uma ética do trabalho e do enriquecimento pelo trabalho (Weber, 2002a) – certamente ligada a idéias religiosas –, os co- lonizadores do Brasil possuíam uma ética do enobreci- mento pela nomeação e um forte repúdio em relação ao trabalho manual.
Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! Uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias da nossa fidalguia. Por isso as melhores in- dústrias nacionais estão nas mãos dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, e se riem das nossas preten- sões. Contra o trabalho manual, sobretudo, é que é uni- versal o preconceito: parece-nos um símbolo servil! Por ele sobem as classes democráticas em todo o mundo, e se engrandecem as nações; nós preferimos ser uma aristocracia de pobres ociosos a ser uma democracia próspera de trabalhadores (Faoro, 2001, p. 105-106).
Conclui-se, por esse esboço bastante rápido e abstrato, que uma série de conjunturas históricas e culturais, ligadas ao processo de formação dos Estados português e brasileiro, produziram habitus políticos, em conseqüência dos quais, as relações personificadas de le- aldades e de trocas de vantagens, referidas como capital social, segundo a terminologia de Bourdieu (in Coradini, 1998) ainda são decisivas entre nós. Para nossa fidalguia, “a conquista do emprego, ao posto, à dignidade, se faz à custa da intriga bem tecida, da conversa doce” (Faoro, 2001, p. 99) e não mediante regras claras e requisitos intelectuais de uma meritocracia da virtude. É possível que, em razão disso, não só a população e os ingênuos se deixam enganar: mesmo juristas cultos sustentam o fato de que vivemos numa democracia. Paradoxalmente, em nenhum lugar se observam as atitudes necessárias à
materialização da práxis democrática, ou à virtude como princípio, cujas condições históricas de produção não estiveram presentes em nossa formação social.

 

Referências: 
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