A história dos Panteras Negras finalmente contada

Publicado: abril 17, 2014 em Diversos

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Gostar muito de livros é uma droga. Você compra vários e não tem tempo de ler todos. Ano passado, quando ainda morava em Nova York, comprei Black Against Empire: The History and Politics of the Black Panther Party (US$ 19.22 – 25.80, 539 páginas, University of California Press, 2013) dos historiadores Joshua Bloom e Waldo E. Martin Jr., leitura que estou tendo chance de fazer somente agora. Lançado no início de 2013, a obra é o resultado de mais de uma década de pesquisa desses dois acadêmicos em relação ao tema.

O Black Panthers Party (BPP) entrou para o imaginário da “geração hip hop”e do senso comum por conta de sua postura revolucionário e desafiadora em relação estado norte-americano nos anos 1960: negros que se armaram e começaram a patrulhar as ruas dos bairros negros tentando coibir a ação abusiva da polícia em sua abordagem da população moradora dessas áreas. Há vários mitos que ligam o surgimento de gangues como Bloods e Crips de Los Angeles partindo do modelo de organização dos Panthers. Outro ponto que explica em parte a entrada do BPP na mitologia da revolução política armada é a ausência geral de revoluções armadas nos Estados Unidos desde o ano de 1865. 

Nunca li de fato um livro contando a história do BPP (em português não há nada disponível) e ao folhear as primeiras páginas do livro de Bloom e Martin Jr. descobri que isso foi uma coisa ironicamente boa. Revisando a produção acadêmica e não acadêmica sobre a história do grupo, os autores afirmam que a maior parte dessa literatura é ideologicamente enviesada devido a ausência de fontes confiáveis. O que é explorado nesses trabalhos busca reconstruir a conexão entre o partido e violência (armas) a partir de entrevistas ou relatos orais de ex ativistas, análise de esparsos documentos produzidos pelo grupo e de matérias sensacionalistas publicadas na imprensa.

A estratégia adotada pelos historiadores foi distinta. Após a análise de relatos orais esgotarem as possibilidades de reunir novas informações, os historiadores voltaram suas análises para os documentos produzidos pelo grupo cruzando dados e contrapondo-os com a história oral ou trajetória individual de ativistas. Essa metodologia possibilitou a reconstrução de uma genealogia das estratégias e dinâmicas das práticas políticas além das diretrizes ideológicas do BPP. Em seu trabalho de pesquisa os autores coletaram, reuniam e arquivaram o mais completo acervo do períodico do partido criando o Black Panther Newspaper Collection. Essa coleção conta com todas as edições do jornal entre 1967-1971 (período de maior influência e atividades do grupo) e ao todo são 520 edições de um total de 537 publicadas pelo grupo. A partir desse acervo já foram produzidas dezenas de dissertações de mestrado e teses de doutorado. Black Against Empire é o primeiro livro voltado para um público mais amplo, não acadêmico.

O BPP surgiu na cidade de Oakland, Califórnia, no final de 1966. Seus fundadores foram os estudantes Huey P. Newton e Bobby Seale. Newton, ao estudar a constituição estadual, descobriu uma lei que permitia o porte e exibição pública de armas legais por qualquer cidadão californiado desde que as mesmas tivessem o objetivo de segurança pessoal. Cansados dos abusos policiais, os jovens estudantes arregimentaram outros jovens dispostos a realizar a patrulha da ação da polícia. Eles seguiam as viaturas policiais armados e acompanhavam as abordagens feitas a cidadãos negros. Contudo, a idéia de auto-defesa e uso de armas teve que ser reavaliada pelo grupo quando a lei que sustentava a ação dos BPP foi revogada pelo estado da Califórnia. 

Até meados de 1968, o BPP era uma organização relativamente pequena. Ao final daquele ano no entanto tudo mudaria: cerca de 20 filiais foram abertas em cidades que se extendiam de Los Angeles à Nova York. Em 1970 havia cerca 68 escritórios do grupo espalhados por todo os Estados Unidos. Os historiadores concluem que: “The Black Panther Party had become the center of a revolutionary movement in the United States” (O Partido Black Panther tinha se tornado o centro de um movimento revolucionário nos Estados Unidos). Sua rápida expansão e as idéias defendidas pelo grupo levaram o diretor do FBI à época, J. Edgar Hoover, a fazer uma famosa declaração: “The Black Panther Party, without question, represents the greatest threat to the internal security of the country” (O Black Panther Party, sem dúvida, representa a maior ameaça a segurança interna do país).

Em linhas gerais, a rápida expansão do BPP é explicada pelos autores devido a uma série de fatores conjunturas relacionadas a situação das relações raciais nos EUA na segunda metade dos anos 1960. O Movimento Pelos Direitos Civis havia triunfado com as decisões da Suprema Corte em seu favor de 1964 e 1965 (Civil Rights Act e Voting Rights Act) que anulavam leis que sustentavam a segregação racial vigente no sul do país. Porém, havia uma massa empobrecida de negros urbanos ao norte para os quais essa medida trouxe poucos ou nenhum benefício. Esse era um nicho da população afro-americana que vivia a realidade dos guetos urbanos de cidades como Chicago, Nova York, Los Angeles e enfrentava cotidianamente desemprego, violência policial, segregação urbana e residencial além de racismo institucional.

Nesses espaços havia mais recepção as falas inflamadas de Malcolm X do que a ideologia de não violência vindas de Martin Luther King Jr., um representante da classe média e burguesia negra sulista. Porém, foi justamente após o assassinato de King, em 1968, que teve início uma radicalização ideológica dos movimentos negros. King era responsável por manter coalizões entre diferentes grupos dentro e fora do movimento pelos direitos civis e com sua morte essas alianças deixaram de existir. O resultado foi a ascensão de ideologias como o Black Power e maior evidencia de jovens lideranças como Stokely Carmichael. Um filme que retrata bem esse período é o documentário The Black Power Mixtape 1967 -1975 (leia mais AQUI). Nesse bojo, o apelo vindo dos Panthers à auto-defesa cairia como uma luva e atrairia a atenção de jovens urbanos das grandes metrópoles, pouco dispostos a aderir a ideologia de não violência ou que entendiam como ineficiente.

Em termos teóricos, o BPP associava ideologias revolucionárias de esquerda oriundas no Terceiro Mundo (termo corrente à época) com a tradição de nacionalismo negro. O grupo via as comunidades negras nos Estados Unidos como uma colônia e a polícia como um exército que a ocupava organizando e controlando seu funcionamento. Assim, Huey P. Newton e Bobby Seale criaram um discurso político revolucionário que desafiava o status quo norte americano. Tendo Malcolm X e Franz Fanon como influência, eles afirmavam que “the black people constituted a ‘colony in the mother country'” (o povo negro constituem uma colônia dentro da pátria mãe). Assim sendo, o grupo se tornou o elo de ligação entre a luta por independência negra no interior dos EUA e os oponentes ao imperialismo americano ao redor do mundo.

O período de existência do grupo se extendeu de 1966 a 1982. Entre 1969 e 1975 o FBI concentrou seus esforços em desmantelar o BPP através seu programa de contra inteligência, COINTELPRO. Fazendo uso de táticas que idam desde a infiltrar agentes que serviam como informantes e agitadores dentro do grupo chegando até a execução de lideranças, o FBI buscava difamar o BPP apresentando o mesmo como uma ameaça à sociedade norte americana e questionador de seus valores: um inimigo do estado. Essa estratégia impedia que o BPP e outros grupos nacionalistas ganhassem a respeitabilidade da maior parte da população negra e não negra. Apenas aqueles que estavam mais próximos de suas atividades e/ou se beneficiavam de seus projetos – como o Free Breakfast Program (café da manhã gratuito para a comunidade e principalmente crianças) – eram capazes de ter uma percepção diferenciada do grupo.

Os autores do livro afirmam que essa tática do FBI em vilipendiar o grupo também explica em parte o pequeno número de trabalhos sérios sobre o BPP. O grupo entrou para a memória coletiva dos EUA como um bando de homens e mulheres negros/as raivosos/as, comunistas e armados/as dispostos/as a derrubar o governo americano por todos os meios possíveis. Black Against Empire busca fazer jus a história real do BPP distanciando-se da difamação e mal entendidos criados e recriados no decorrer do tempo. Leia um trecho do livro AQUI 

Por fim, um livro que serve como uma boa companhia para ser lido conjuntamente a esse sobre o BPP é a nova biografia de Malcolm X escrita em 2011 pelo historiador Manning Marable. A obra conquistou o prêmio Pulitzer em 2012 como melhor livro de história publicado em 2011. Traduzido para o português ano passado ele foi lançado por aqui pela editora Companhia das Letras sobre o título de Malcolm X – Uma Vida de Reinvenções. Leia minha resenha do livro clicando AQUI e um trecho do livro AQUI

Muita Paz, Muito Amor!

Por: MARCIO MACEDO (KIBE)

Leia mais: http://newyorkibe.blogspot.com.br/2014/01/a-historia-dos-panteras-negras.html

 

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